Em julho de 2026, uma notícia surpreendeu o setor imobiliário português: os brasileiros já têm mais patrimônio investido em imóveis em Portugal do que nos Estados Unidos. Num mercado que combina preços em máximos históricos, retorno do crédito mais caro e uma oferta estruturalmente escassa, esse dado revela muito sobre as motivações — e as oportunidades — de quem aposta em Portugal.
Portugal supera os EUA no radar do investidor brasileiro
Segundo dados do Banco Central do Brasil citados pela imprensa portuguesa, o valor dos imóveis detidos por brasileiros em Portugal somava, em dezembro de 2024, cerca de 1,45 mil milhões de dólares — equivalente a 18,7% de todo o investimento imobiliário brasileiro no exterior. Nos EUA, o montante ficava em torno de 1,21 mil milhões de dólares, ou 15,7% do total. Essa inversão aconteceu após 2022, quando o fluxo migratório do Brasil para Portugal ganhou novo fôlego no pós-pandemia.
E o mais relevante: não se trata apenas de volume. O perfil do comprador brasileiro está a evoluir. Especialistas ouvidos pela imprensa portuguesa confirmam que, nos últimos anos, chegou um comprador com rendimentos mais elevados, adquirindo casas acima dos 600 mil euros — muito diferente do perfil de quem chegou buscando residência acessível.
O peso do comprador brasileiro no segmento premium
Em 2025, os compradores brasileiros movimentaram um total de 65,8 milhões de euros no segmento de imóveis de luxo em Portugal, de acordo com dados da Porta da Frente Christie's International Real Estate. O valor médio por transação nesse segmento atingiu os 1,4 milhões de euros, com o maior negócio correspondendo à venda de uma moradia em Cascais por 8 milhões de euros.
Os apartamentos lideram as preferências (64% da procura total), com destaque para as tipologias T2 e T3. Mas são as moradias que registam o valor unitário mais expressivo: enquanto apartamentos premium chegam a 1,17 milhões de euros em média, as moradias chegam a 2,47 milhões.
Foram precisamente as famílias originárias do Brasil, Angola e França as que mais compraram casas em Portugal em 2025, entre os compradores estrangeiros que residem no país — totalizando cerca de 41 mil operações de famílias estrangeiras, mais 6,6% face a 2024.
O contexto do mercado: preços altos, transações a arrefecer
Para entender o apetite dos brasileiros, é preciso entender o mercado onde estão a comprar. Em janeiro de 2026, os preços das casas em Portugal subiram 13,1% face ao mesmo mês de 2025, atingindo novo máximo histórico de 3.047 euros/m², segundo o índice do idealista. O índice de preços da habitação do INE para o 1.º trimestre de 2026 confirmou uma valorização anual de 17,8%, com 37.745 alojamentos transacionados — uma queda de 8,7% no volume em relação ao período homólogo.
Ou seja: os preços continuam a subir, mas as transações estão a diminuir. O mercado atingiu o pico em 2025, com vendas estimadas em 41,1 mil milhões de euros (mais 22% face a 2024), e agora entra numa fase de maior seletividade. Lisboa mantém-se a região mais cara, com preço mediano de 4.322 euros/m², seguida do Algarve (3.899 euros/m²) e da Madeira (3.761 euros/m²).
No mercado de arrendamento, a tendência é oposta: as rendas continuaram a subir no 1.º trimestre de 2026, atingindo uma média nacional de 16,13 euros/m², com Lisboa a liderar em 20,79 euros/m².
A virada da Euribor: o novo elemento de risco
Há um fator novo e relevante para quem planeja financiar a compra em Portugal: a Euribor voltou a subir. Em junho de 2026, o Banco Central Europeu (BCE) aumentou as taxas diretoras em 0,25 pontos percentuais — a primeira subida desde setembro de 2023, após oito cortes consecutivos. Hoje (19 de julho de 2026), a Euribor a 6 meses — a mais usada nos créditos habitação em Portugal — está em 2,688%, e a 12 meses em 2,873%.
Na prática, cada variação de 0,5 pontos percentuais na Euribor pode representar uma alteração de 30 a 50 euros na prestação mensal de um crédito de 150 mil euros a 30 anos. Para quem contrata um crédito de taxa variável agora, é essencial calcular cenários de subida. A próxima reunião do BCE, a 22-23 de julho, poderá esclarecer a direção das taxas no segundo semestre.
Por que Portugal ainda vale a pena — com realismo
Mesmo com preços elevados e juros voltando a pressionar, os fundamentos que atraem o investidor brasileiro continuam sólidos. Lisboa oferece um desconto de mais de 60% em relação a Londres e 47% em relação a Paris no segmento prime. A JLL projeta que Portugal crescerá 2,3% em 2026, acima da média da Zona Euro, com inflação estabilizada em torno de 2% e mercado de trabalho resiliente. O investimento estrangeiro é responsável por cerca de 70% das transações comerciais, e o país mantém ratings soberanos no nível 'A'.
O mercado está mais maduro e mais exigente — e isso é, no fundo, uma boa notícia. Quem entra agora com análise cuidadosa, escolha criteriosa de localização e visão de médio e longo prazo encontra um mercado com fundamentos genuínos. Quem busca ganhos rápidos num cenário de valorização explosiva precisará ajustar as expectativas: essa fase ficou para trás. O que resta é um Portugal sólido, seletivo e, para o comprador bem informado, ainda muito atrativo.